Lo que pone el alma.

Publicado emFevereiro 27, 2012 por

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Soledades, primeiro livro de Antonio Machado, foi publicado entre 1899 e 1902. Posteriormente, em 1907, foi reeditado com modificação sob o título Soledades, galerías y otros poemas. Este livro, em que se insere o poema abaixo exposto, tem como gênese o retrato do homem solitário em um mundo agonizante, cuja preocupação com tempo e com a presença de Deus são pilares vitais. Como expressa ele próprio na introdução, “Pensaba yo que el elemento poético (…) [era] una honda palpitación del espíritu; lo que pone el alma (…) en respuesta animada al contacto del mundo“. É o retrato do homem que se preocupa com o “tic tac del reloj“, que se angústia perante a pergunta: “cuándo ha de volver lo que acaba de pasar?”, e que se volve, mais e mais, à verrumante memória de “La plaza y los naranjos encendidos / con sus frutas redondas y risueñas.” Para, finalmente, como que agarrando o último pedaço de madeira em meio ao mar furioso, dizer: “Anoche cuando dormía / soñé, ¡bendita ilusión! / que era Dios lo que tenía / dentro de mi corazón”. É a confissão lírica daquele que sente a “nostalgia de infinito”.

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Es una tarde cenicienta y mustia (LXXVII)

   Es una tarde cenicienta y mustia, 
destartalada, como el alma mía; 
y es esta vieja angustia 
que habita mi usual hipocondría. 

    La causa de esta angustia no consigo 
ni vagamente comprender siquiera; 
pero recuerdo y, recordando, digo: 
—Sí, yo era niño, y tú, mi compañera.

.

    Y no es verdad, dolor, yo te conozco, 
tú eres nostalgia de la vida buena 
y soledad de corazón sombrío, 
de barco sin naufragio y sin estrella. 

    Como perro olvidado que no tiene 
huella ni olfato y yerra 
por los caminos, sin camino, como 
el niño que en la noche de una fiesta 

    se pierde entre el gentío 
y el aire polvoriento y las candelas 
chispeantes, atónito, y asombra 
su corazón de música y de pena, 

   así voy yo, borracho melancólico
guitarrista lunático, poeta,
y pobre hombre en sueños,
siempre buscando a Dios entre la niebla.

Nos primeiros dois versos, pela colocação dos adjetivos “cenicienta” e “mustia“, Machado põe a informação inicial de uma idade avançada e a lembrança do passado, abrindo o poema com a questão do tempo e da alma (sendo a “tarde” seu espelho metafórico), como se segue no terceiro e quarto versos quando revela-se o problema da “vieja” angústia. Nos próximos quatro versos que se seguem, o poeta antevê um conflito íntimo: não consegue compreender nem vagamente a causa da angústia, mas a recorda. Não compreender a causa significa que ele não tem poder de conhecimento sobre a angústia, mas a sente como se ela o acompanhasse durante toda a sua vida (-Sí, yo era ninõ, y tú, mi compañera): por isso recorda. Não é, segue-se, um elemento externo de sua vida, que o visita de quando em quando ou com hora marcada, mas, antes, é um sentimento vivaz, que faz parte integrante da sua própria estrutura interna.

O poeta revela toda a sua dor quando, num mergulho dentro de si, sentencia: “Y no és verdad, dolor: yo te conozco“. A angústia que aludia na primeira estrofe é agora revelada pela lembrança, como produto da “nostalgia de la vida buena” e da “soledad de corazón sombrío” (décimo e décimo primeiro versos). Novamente é imposta a contradição vindoura da brutalidade do tempo: a nostalgia do passado, e a solidão do presente. Um “barco sin naufragio y sin estrella” - sem se acontecer e sem caminho. A percepção se encerra sem vislumbrar o futuro, como o “perro sin camino” e “el ninõ que (…) se perde entre el gentío“, mas tem hierarquia ontológica: de barco à perro, de perro à criança: é a evolução da consciência do poeta. É o salto de vigília que não vai para frente, pois o “hombre de sueños” que busca “a Dios entre la niebla” é a mesma criança perdida “entre (…) el aire polvoriento y las candelas chispeantes“, o mesmo “perro que no tiene huella ni olfato” e o mesmo barco sem estrelas. A univocidade dos quatro símbolos é evidente: revela a posição embaraçosa do homem que sente a “ânsia impotente de infinito”: a cotovia canta no alto, mas entre o oceano e o empíreo  flutua de asas abertas a finitude ofuscante.

O perder-se no mundo é, por fim, toda a causa recordada. Antonio Machado crê na impossibilidade do conhecimento da sua angústia por vias causais: não há processo lógico aqui. O que há é a manifestação da angústia como elemento biográfico. Comentando a poesia modernista do seu tempo, diz ele: “Pensar lógicamente es abolir el tiempo, suponer que no existe, crear un movimiento ajeno al cambio, discurrir entre razones imutables. [...] Pero al poeta no le es dado pensar fuera del tiempo, porque piensa su propria vida que no es, fuera del tiempo, absolutamente nada“. É assim que surgem as figuras dos versos vinte e um e vinte e dois: o ébrio melancólico, o guitarrista lunático e, por fim, o poeta. São “tipos” de homens não sistemáticos. É ao artista e ao poeta que sente sua biografia se desenrolando e tem com ela uma relação mais simbólica e vivida do que conceitual e silogística. O voo audaz que o poeta vai ampliando restringe-se ao espaço limitado pela niebla; o grou de quem Machado emprestada as asas nunca deixou o torrão natal: por muito ensaiou a subida, e, assustado, tornou aos “ásperos pinhais”, nunca alcançando o olhar a plaga etérea.